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“ EU CUÍ
CÊS TUDO ! ”
Durante muitos anos, morou, aqui em Belo Vale, uma velha chamada
MACRINA. Não tinha documentos. Nem precisava. Era a Macrina da Assumpção
Pedra. Assim, com todas as “assumpções” a que tinha direto. Diziam os
belovalenses mais velhos, e ela mesma confirmava, ter sido neta de
escravos.
Talvez devesse eu usar o seu nome para título deste meu caso.
Entretanto, entre as tantas lições que aprendemos na vida,
principalmente vindas de pessoas mais simples, mais humildes, a frase
acima, que me foi dita por ela, a Macrina, em 1967, me lembro bem, foi
uma das mais belas orações que ouvi na minha vida. Isso mesmo, uma
verdadeira e bela oração. Nos dois sentidos.
A Macrina morava numa pequena casa, aqui, pertinho da mina d’água, na
entrada da cidade. A sua casa era desse tamanhinho. Pequenininha mesmo.
Não passava de uns seis metros quadrados. Isso, somando-se os dois
cômodos: a sala/cozinha, com uma mesinha, uma prateleira e o fogão a
lenha, e o quarto de dormir, com a cama de bambu e dois cabides
pendurados na parede. E um pequeno caixote bem no cantinho da cama.
Tinha ainda mais: no portal entre os dois cômodos, um prego para
pendurar a lamparina, que, dali, iluminava a casa toda.
O chão, sempre limpinho, era de terra batida. No terreiro, também de
terra batida, algumas folhas secas trazidas pelo vento e uma meia dúzia
de formigas a procura de comida. Havia também um pequeno banco, um toco
de madeira, para os visitantes. Ela mesma ficava sentada na porta de
entrada/saída da sala/cozinha. Havia ainda, em frente à sua casa, uma
grande moita de bambu.
Como a Macrina se encontrava numa idade avançada, com mais de cem anos,
vivia quase sem poder andar. Alimentava-se com pouca coisa. Um caneco de
leite com alguns biscoitos na parte da manhã e à tardinha, quando ia
para a cama. No almoço, que todos os dias lhe mandava a D. Trindade,
esposa do Sr. Antoninho Pinto, arroz, feijão, alguma verdura e/ou legume
e um pedaço de carne. Um pouco de tudo.
Naquela época, bem antes do casamento, era costume apresentar a noiva
para a família, e vice-versa. Então, lá pelos princípios de 1967, eu
trouxe a Belo Vale a minha noiva e o futuro sogro para conhecerem os
meus parentes e amigos daqui.
Uma das visitas, claro, na casa da Macrina, para “tomar a Bênção”. E
ouvir os seus “causos”.
Numa das observações, de cá e de lá, ela se virou para a minha noiva e
disse, toda cheia de alegria: “Minha fia, eu lembro desses minino tudo.
Lembro do Doutor, do Nenem, da Lila, do Dazinho, do Cartacho, da Maninha
,,,.” - e foi falando os nomes dos irmãos, dos pais, dos tios, dos avós,
.... como se fosse uma pessoa de trinta e poucos anos. E naquele momento
de entusiasmo, tocou o meu braço e, bem juntinho de mim, me disse:
...... “Meu fio... eu cuí ocê, seus irmâo, seu pai, sua mãe, a sua vó
Santinha ... Eu cuí cês tudo...”
Desde então, guardei essa frase, ou melhor, essa oração comigo. Quanto
recado ! E com que simplicidade uma parteira fala do seu trabalho: Eu
colhi todos vocês. Muito mais bonito até que colher uma manga no pé,
uma jabuticaba bem madura, um peixe fisgado no anzol,,,
A Macrina faleceu algum tempo depois, com 102 anos aproximadamente.
Há muito, pretendia escrever esse caso - ou causo - , como queiram. Eu
precisava registrar e passar para os meus filhos essa lição de vida.
Para me certificar das datas e nomes, resolvi contar primeiro para a D.
Dalva Resende Sacramento, esposa do Sr. Geraldo, que era muito amiga da
Macrina. Muito religiosa, foi a D. Dalva, com a ajuda da D. Raimunda do
João da Santinha, quem preparou o corpo para o enterro. A Dalva ouviu
atenciosamente, gostou do texto, achou-o muito bonito mas, me falou até
um pouco sem jeito: “só há um detalhe não muito verdadeiro... a Macrina
nunca foi parteira. Como ela era chamada para cuidar de recém-nascidos,
o que ela fazia com muita dedicação e muito carinho, talvez você tenha
se enganado. O que ela também fazia era benzer as crianças. Naquela
época, de “mal-olhado”, “vento-virado”, essas coisas”....
Um choque !
Escondi o caso. Como aceitar esse meu engano? Registrar assim mesmo?
Esquecer? Quem sabe a Macrina tenha me falado: “eu acolhi todos vocês.”.
O sentido é o mesmo...
Agora, que aqui estou, numa madrugada de outubro, depois de tanto tempo,
resolvi parir este texto. E você, Macrina, vai ser a parteira. Mesmo que
pela primeira vez. E na mais moderna maternidade que hoje existe aqui na
Terra: a internet. O endereço seu ? É fácil, fácil: macrina@infinito.céu
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